
Ela Não Morreu, Foi Morta
Por Cida Frausino
Enquanto o “não” de uma mulher for tratado como provocação, seguiremos enterrando mulheres.
Ela não morreu.
Foi morta.
O nome dela era Naiara de Souza Lopes.
Tinha 33 anos.
Era mãe.
Por 17 anos, viveu em um casamento controlador e abusivo. Um relacionamento marcado por agressões, medo e silêncio. Quando era machucada, passava dias sem visitar familiares para esconder os hematomas. Fingiu que estava tudo bem por tempo demais.
Nunca conseguiu denunciar.
Até que, dez dias antes de ser assassinada, algo mudou. Após mais uma invasão à casa onde já morava separada, uma prima foi visitá-la a pedido da mãe, que estava preocupada por não conseguir contato. Foi nesse momento que Naiara contou sobre a rotina de violência.
Eles estavam separados desde o final de dezembro.
Mas separação não significa segurança quando o agressor acredita que tem direito sobre a vida da mulher.
Depois da separação, ele saiu de casa — mas não saiu do controle. Invadiu a residência, quebrou objetos, arrancou as câmeras de segurança. Na última invasão, se escondeu dentro da casa e esperou Naiara chegar do trabalho.
Ela foi assassinada a facadas.
Na frente do filho mais novo, uma criança de apenas três anos.
Naiara também deixou um filho de 15 anos.
Depois de atacá-la, o agressor contou a um vizinho o que havia feito e pediu que tirassem o filho da casa para que a criança não visse a mãe daquele jeito.
É impossível não perceber a brutal contradição:
um homem capaz de matar, mas preocupado com a imagem da cena.
A violência não começa na faca.
Ela começa no controle.
No isolamento.
Na manipulação.
Na invasão de privacidade.
Na sensação constante de medo.
Naiara não foi vítima de um surto repentino.
Foi vítima de 17 anos de violência que se intensificou quando decidiu se separar.
Esse padrão se repete no Brasil.
A maioria dos feminicídios acontece dentro de casa.
Grande parte é cometida por companheiros ou ex-companheiros.
E muitas vítimas já haviam sofrido agressões antes da morte.
Naiara tentou sair.
Tentou se libertar.
Mas a obsessão de quem acredita que mulher é posse não aceita fim.
E é preciso dizer:
o momento da separação é um dos mais perigosos para a mulher.
Quantas Naiaras ainda vão morrer antes que a sociedade entenda que controle não é amor, que invasão não é ciúme, que insistência não é prova de sentimento?
Ela tinha 33 anos.
Era mãe.
Era filha.
Não é apenas mais uma notícia.
É mais uma mulher morta por tentar viver sem violência.
Naiara não morreu.
Foi morta.


















