
A decisão da Receita Federal de intensificar o monitoramento de dízimos e ofertas recebidos por igrejas via Pix reacendeu um debate inevitável: prioridades. A medida, segundo o próprio Fisco, não cria novos impostos nem fere a imunidade tributária garantida pela Constituição. Ainda assim, o recado político é claro, a lupa está apontada para o templo, enquanto escândalos bilionários seguem pedindo respostas fora dele.
Na prática, a Receita exige que valores recebidos por Pix constem na contabilidade oficial das instituições religiosas, permitindo o cruzamento de dados para verificar compatibilidade entre receitas e despesas e coibir irregularidades, como a confusão entre patrimônio pessoal de líderes e o patrimônio da igreja. O entendimento é de que dízimos e ofertas devem ingressar exclusivamente em contas institucionais; transferências para contas pessoais, sem comprovação de finalidade, podem gerar autuações e sanções administrativas.
Transparência é necessária — nisso não há controvérsia. O problema é o empenho seletivo. Enquanto a fé é fiscalizada com zelo técnico, a sociedade cobra a mesma energia investigativa diante da farra do INSS, marcada por fraudes, benefícios indevidos e rombos que drenam recursos de aposentados e pensionistas. Onde está a mesma urgência? Onde estão as respostas rápidas, as auditorias profundas, as punições exemplares?
Não se trata de defender desorganização contábil em igrejas, nem de blindar maus gestores. Trata-se de equilíbrio institucional. O Estado que exige prestação de contas do dízimo precisa demonstrar igual rigor ao enfrentar esquemas que corroem a Previdência. A fiscalização não pode ser valente com o pequeno e tímida com o grande.
Ao Governo Federal, fica o recado: fé não paga imposto, mas corrupção custa caro. Se a régua é alta para o altar, que seja igualmente alta para os cofres públicos — especialmente quando aposentadorias são tratadas como butim. E ao INSS, resta provar que a mesma lupa que acompanha o Pix das igrejas também ilumina, sem exceções, os desvios que tanto prejudicam quem trabalhou a vida inteira.
Fiscalizar é dever. Escolher quem fiscalizar é decisão política. E o país está atento.


















