
Para uma mulher que sobreviveu a um relacionamento abusivo, a ideia de confiar novamente em alguém pode parecer uma montanha intransponível. A traição, a manipulação e a dor deixam cicatrizes profundas, e o coração, como um mecanismo de autoproteção, se fecha. A desconfiança se torna um escudo, mas um escudo que, com o tempo, pode se transformar em uma prisão, isolando-a de novas e saudáveis conexões.
Como psicóloga, entendo que o medo de se machucar novamente é legítimo e precisa ser acolhido. No entanto, é possível, sim, reaprender a confiar. Não se trata de uma confiança cega e ingênua, mas de uma confiança sábia, construída sobre o alicerce do autoconhecimento, da intuição e, fundamentalmente, do estabelecimento de limites saudáveis.
A Confiança Quebrada: Uma Ferida Profunda
Um relacionamento abusivo destrói a confiança em duas frentes: a confiança no outro e, talvez a mais devastadora, a confiança em si mesma. A vítima passa a duvidar de seu próprio julgamento, de sua capacidade de perceber os sinais de perigo e de sua intuição. “Como eu não vi isso antes?”, “Como pude permitir que isso acontecesse?” são perguntas que ecoam e minam a autoconfiança.
Reaprender a confiar, portanto, começa com um processo de reconexão consigo mesma. Antes de poder confiar em outra pessoa, você precisa voltar a confiar em sua própria percepção, em seus sentimentos e em sua capacidade de se proteger.
Diferenciando Padrões Abusivos de Relações Saudáveis
Um dos maiores medos é o de repetir o mesmo padrão. Para evitar isso, é crucial aprender a identificar os sinais de uma relação saudável em contraste com os de uma relação abusiva.
| Relação Saudável | Relação Abusiva |
| Respeito Mútuo: Suas opiniões, sentimentos e limites são valorizados. | Controle e Desrespeito: Suas opiniões são invalidadas, seus sentimentos minimizados e seus limites violados. |
| Comunicação Aberta: Vocês podem conversar sobre tudo, inclusive sobre os problemas, de forma respeitosa. | Comunicação Agressiva ou Passivo-Agressiva: A comunicação é marcada por críticas, sarcasmo, acusações ou silêncio punitivo. |
| Apoio ao Crescimento Individual: Seu parceiro(a) incentiva seus sonhos, amizades e interesses pessoais. | Isolamento: Seu parceiro(a) tenta afastá-la de amigos e familiares e critica seus interesses. |
| Confiança e Segurança: Você se sente segura para ser você mesma, sem medo de julgamento ou punição. | Medo e Insegurança: Você pisa em ovos, com medo da reação do outro, e se sente constantemente ansiosa. |
| Responsabilidade Compartilhada: Ambos assumem a responsabilidade por seus erros e trabalham juntos para resolver os conflitos. | Culpa e Manipulação: Você é constantemente culpada pelos problemas da relação e se sente responsável pelas emoções do outro. |
A Construção de Limites Saudáveis: Sua Bússola Interna
Limites são as regras que estabelecemos para proteger nosso bem-estar físico e emocional. Eles são a expressão do nosso amor-próprio e a base para qualquer relacionamento saudável.
- Identifique Seus Limites: Reflita sobre o que é aceitável e inaceitável para você em um relacionamento. O que você precisa para se sentir segura e respeitada? Escreva esses limites.
- Comunique Seus Limites de Forma Clara e Firme: Não espere que o outro adivinhe seus limites. Comunique-os de forma calma e assertiva. Por exemplo: “Eu não me sinto confortável quando você levanta a voz para mim. Se isso acontecer, eu vou me retirar da conversa.”
- Mantenha Seus Limites: A parte mais difícil é manter os limites quando eles são testados. Se você estabeleceu uma consequência para a violação de um limite, é crucial cumpri-la. Isso ensina ao outro como você espera ser tratada e, mais importante, reforça para si mesma que você se leva a sério.
A Importância da Intuição: Sua Aliada Mais Poderosa
Sua intuição é aquela “voz” interior, aquele sentimento visceral que lhe diz se algo está certo ou errado. Em um relacionamento abusivo, você foi ensinada a ignorar essa voz. Reaprender a confiar nela é fundamental.
- Pratique a Atenção Plena (Mindfulness): A meditação e a atenção plena ajudam a acalmar a mente e a se conectar com as sensações do seu corpo. Seu corpo, muitas vezes, reage a uma situação antes mesmo que sua mente a processe. Preste atenção a esses sinais (aperto no peito, nó na garganta, etc.).
- Valide Seus Sentimentos: Se algo não parece certo, não ignore. Dê a si mesma a permissão de investigar esse sentimento, em vez de racionalizá-lo ou minimizá-lo.
Reaprender a confiar é uma jornada, não uma corrida. Exige paciência, autocompaixão e a coragem de se colocar em primeiro lugar. Comece devagar, praticando a confiança em si mesma e em pequenas interações seguras. Cerque-se de pessoas que a apoiam e a respeitam.
Lembre-se: você não precisa ter todas as respostas. Você só precisa ouvir a sua voz, honrar seus limites e confiar na sua capacidade de navegar em novas relações com a sabedoria que a sua história lhe deu. A confiança que você busca não é um salto no escuro, mas um passo consciente em direção a um futuro onde você se sente segura, respeitada e livre para amar e ser amada de forma saudável.
Por Psicóloga Carol Gonçalves CRP 01/26920


















