
Para muitas mulheres que vivenciaram relacionamentos abusivos, a palavra “perdão” pode evocar uma série de sentimentos complexos e, por vezes, contraditórios. Há uma pressão social, e até mesmo interna, para perdoar e “seguir em frente”, como se o perdão fosse um botão mágico que apaga a dor e a injustiça. No entanto, o processo de perdão é muito mais complexo, especialmente quando se trata de traumas profundos.
Como psicóloga, entendo que o verdadeiro perdão não significa esquecer o que aconteceu, nem absolver o agressor de suas responsabilidades. O perdão, em seu sentido mais terapêutico, é um ato de libertação pessoal, uma escolha consciente de se desvencilhar do peso da culpa e do ressentimento que nos aprisiona ao passado. É um presente que você dá a si mesma, sem minimizar a dor ou a validade de sua experiência.
A Armadilha da Culpa e do Ressentimento
Após um relacionamento abusivo, é comum que a mulher se sinta sobrecarregada por sentimentos de culpa e ressentimento. A culpa pode surgir de perguntas como “Por que eu permiti isso?”, “Eu deveria ter percebido os sinais?”, “Será que eu fiz algo para merecer?”. O ressentimento, por sua vez, é a raiva não processada, a mágoa persistente pela injustiça sofrida, que se aloja no coração e na mente, consumindo energia vital.
Essas emoções, embora compreensíveis, atuam como correntes invisíveis que a mantêm ligada ao agressor e ao passado doloroso. Elas impedem a cura plena e a capacidade de construir um futuro mais leve e feliz. A libertação dessas amarras é o cerne do perdão.
Perdão Não é Esquecimento, Nem Absolvição
É crucial desmistificar o que o perdão não é:
- Não é esquecer: Esquecer um trauma não é possível nem saudável. A memória serve como um aprendizado e um alerta para o futuro. O perdão permite que a memória exista sem que ela continue a causar dor aguda.
- Não é absolver o agressor: Perdoar não significa que você concorda com o que foi feito, que o comportamento abusivo foi aceitável ou que o agressor está livre de culpa. A responsabilidade pelos atos abusivos permanece com quem os cometeu.
- Não é reconciliação: Perdoar não implica em reatar o contato ou o relacionamento com a pessoa que a feriu. Você pode perdoar alguém e, ainda assim, manter uma distância segura para proteger seu bem-estar.
- Não é fraqueza: Pelo contrário, perdoar é um ato de imensa força e coragem, pois exige confrontar a dor e escolher um caminho de cura.
O Perdão como Libertação Pessoal: Um Processo de Cura
O perdão é um processo interno e individual, que se desdobra em etapas e não tem um prazo definido. Ele visa a sua paz de espírito, não a do outro.
1. Valide Sua Dor e Sua Raiva
Antes de pensar em perdão, é fundamental reconhecer e validar a dor e a raiva que você sente. Permita-se sentir essas emoções sem julgamento. Elas são respostas naturais a uma situação injusta e dolorosa. Expressar essa raiva de forma saudável (em terapia, escrevendo, praticando exercícios físicos) é um passo importante para processá-la.
2. Compreenda o Impacto do Ressentimento
Reflita sobre como o ressentimento está afetando sua vida. Ele está roubando sua alegria? Impedindo-a de confiar em novas pessoas? Causando problemas de saúde? Reconhecer o custo do ressentimento pode ser um motivador poderoso para buscar a libertação.
3. Escolha Perdoar por Você
O perdão é uma escolha consciente de se libertar do sofrimento que o ressentimento causa. É uma decisão de não permitir que o passado continue a controlar seu presente e seu futuro. Faça essa escolha por sua própria saúde mental e emocional.
4. Desenvolva a Compaixão (por Si Mesma)
Pratique a autocompaixão. Lembre-se de que você fez o melhor que pôde com os recursos que tinha na época. Não se culpe por ter sido vítima de abuso. Trate-se com a mesma gentileza e compreensão que você ofereceria a uma amiga querida.
5. Reconstrua Sua Narrativa
Em vez de se ver como uma vítima, comece a se ver como uma sobrevivente, uma mulher forte que superou adversidades. Sua história não é definida pelo abuso, mas pela sua capacidade de se reerguer e de buscar a cura.
6. Estabeleça Limites Claros para o Futuro
Perdoar não significa abrir mão de sua proteção. É essencial estabelecer e manter limites claros para garantir que você não se exponha novamente a situações ou pessoas que possam feri-la. O perdão não anula a necessidade de autoproteção.
O perdão é uma jornada de cura que a leva de volta para si mesma. É um processo de desatar os nós que a prendem ao passado, não para esquecê-lo, mas para que ele não a defina mais. Ao se libertar da culpa e do ressentimento, você abre espaço para a paz, a alegria e a construção de um futuro onde sua força e sua sabedoria são suas maiores aliadas.
Permita-se essa libertação. Você merece viver uma vida plena, livre do peso do que passou, e com a certeza de que sua dor foi validada e sua resiliência, celebrada.
Por Psicóloga Carol Gonçalves CRP 01/26920


















