
Em sua mensagem de despedida, publicada nas redes sociais, o pastor expressou gratidão à comunidade e afirmou confiar na condução de Deus para o futuro da igreja
Por Flávia Fernandes
O pastor Luciano Estevam anunciou no último domingo (13), durante o culto da manhã, sua renúncia ao ministério pastoral na Primeira Igreja Batista em Aracruz, a PIBARA. Depois de 24 anos e sete meses à frente da igreja, ele revelou que enfrenta uma depressão severa, que tem afetado suas emoções, sentimentos e sua saúde de maneira profunda. Em sua mensagem de despedida, publicada nas redes sociais, o pastor expressou gratidão à comunidade e afirmou confiar na condução de Deus para o futuro da igreja.
A decisão do pastor, embora dolorosa, escancara uma realidade cada vez mais comum no meio evangélico. Líderes religiosos têm enfrentado níveis alarmantes de esgotamento emocional, sobrecarga de trabalho e sintomas relacionados à saúde mental.
Um levantamento realizado pelo Barna Group indicou que 42% dos pastores já pensaram em deixar o ministério devido à exaustão. Entre os motivos mais citados estão a solidão, o excesso de demandas e a dificuldade em equilibrar vida pessoal e vocação pastoral.
“Tenho 42 anos de ministério pastoral e, nesses 42 anos, 24 anos e sete meses na PIBARA. A depressão foi diagnosticada ao final do ano passado e isso vem atrapalhando muito meus sentimentos. Sendo assim, enquanto eu estiver com a doença, não vou arriscar continuar com o ministério de qualquer igreja para não causar prejuízo ao reino de Deus”, informou o pastor.
No Brasil, a situação também preocupa. Uma pesquisa realizada em 2023 pela psicóloga Valquíria Andréia Salinas Goulart, na PUC-SP, revelou que 8% dos pastores da Convenção Geral das Assembleias de Deus apresentavam sintomas de depressão e 18,4% sofriam de ansiedade. Muitos relatam não encontrar espaços seguros para falar sobre suas dores, por medo de julgamento ou por sentirem que precisam manter uma postura de força inabalável diante da comunidade.
Coragem
O caso de Luciano Estevam ganha destaque pelo tempo dedicado à PIBARA e pela coragem em admitir publicamente sua condição. Em sua postagem, ele enfatizou que ama a igreja e confia que Deus continuará conduzindo a obra. O gesto pode servir de estímulo para outros pastores que enfrentam situações semelhantes, mas permanecem em silêncio por receio de parecerem fracos ou incapazes.
A saúde mental de líderes religiosos ainda é um tema delicado e, muitas vezes, negligenciado. Poucas igrejas oferecem suporte psicológico estruturado para seus pastores e, em muitos casos, o cuidado com o emocional é tratado como um assunto secundário. Iniciativas de acolhimento e prevenção começam a surgir em algumas denominações, revelando um movimento tímido, mas necessário, de enfrentamento desse problema.
O afastamento de Luciano Estevam deixa uma marca de sinceridade e transparência em um momento em que tantos enfrentam dores caladas. Sua despedida é, acima de tudo, um chamado à igreja brasileira para olhar com mais sensibilidade para a saúde emocional de seus líderes e para que o ministério pastoral seja sustentado também pelo cuidado mútuo.
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Fonte: Portal comunhão