
Querida leitora,
Quantas vezes você já rolou o feed do seu Instagram e se sentiu, de repente, inadequada? Quantas vezes comparou sua vida, seu corpo, suas conquistas com as imagens perfeitamente curadas que aparecem na sua tela? As redes sociais se tornaram uma extensão de nossas vidas, uma janela para o mundo e uma forma de nos conectarmos. No entanto, essa janela, muitas vezes, mostra uma paisagem distorcida, um palco onde todos parecem estar vivendo suas melhores vidas, o tempo todo. Como psicóloga, tenho visto no consultório o impacto profundo que essa realidade fabricada tem sobre a saúde mental feminina. A busca incessante por validação, a comparação constante e a consequente erosão da autoestima são questões cada vez mais presentes. Hoje, vamos mergulhar nesse universo digital e entender como ele afeta nossa mente e nosso coração, e, mais importante, como podemos navegar por ele de forma mais saudável e consciente.
O Palco da Perfeição: A Realidade Editada das Redes Sociais
É crucial entendermos que as redes sociais são, em sua essência, um palco. As pessoas selecionam cuidadosamente os momentos que querem compartilhar: as viagens exóticas, as promoções no trabalho, os relacionamentos perfeitos, os corpos esculpidos. Ninguém posta uma foto da casa bagunçada, da briga com o parceiro, da crise de ansiedade ou do sentimento de fracasso. O que vemos é um recorte, uma versão editada e filtrada da realidade.
Essa curadoria constante cria uma ilusão de perfeição que é inatingível. Quando consumimos essas imagens dia após dia, nosso cérebro começa a registrar essa ficção como uma norma. Passamos a acreditar que todos ao nosso redor estão vivendo vidas extraordinárias, enquanto a nossa é comum e cheia de falhas. Essa percepção distorcida é o solo fértil para o florescimento da insatisfação e da baixa autoestima.
A Armadilha da Comparação: O Ladrão da Alegria
O ser humano é um ser social e, por natureza, nos comparamos aos outros. É uma forma de nos avaliarmos e nos situarmos no mundo. No entanto, as redes sociais potencializam essa tendência a um nível tóxico. A comparação que antes se limitava ao nosso círculo social imediato (amigos, vizinhos, colegas de trabalho), agora se expande para um universo de milhões de pessoas, incluindo celebridades e influenciadores com estilos de vida completamente fora da nossa realidade.
Ao nos compararmos com essas versões idealizadas, estamos fadadas a nos sentir inadequadas. A comparação constante nos coloca em um estado de déficit, onde sempre estamos “perdendo” em algum aspecto: não somos tão bonitas, não somos tão bem-sucedidas, não viajamos tanto, não temos um relacionamento tão perfeito. Como disse Theodore Roosevelt, “a comparação é o ladrão da alegria”. Nas redes sociais, ela se torna o ladrão da nossa autoestima e da nossa paz de espírito.
A Busca por Validação: Likes, Comentários e a Moeda da Autoestima
As redes sociais funcionam com base em um sistema de recompensas imediatas. Cada like, cada comentário, cada compartilhamento libera uma pequena dose de dopamina em nosso cérebro, o neurotransmissor associado ao prazer e à recompensa. Nos tornamos, de certa forma, viciadas nessa validação externa.
Nossa autoestima, que deveria ser uma construção interna, baseada em nossos valores, qualidades e conquistas, passa a ser terceirizada. Ela se torna dependente da aprovação dos outros, da quantidade de interações que nossas postagens recebem. Começamos a nos perguntar: “Por que essa foto não teve tantos likes?”, “Será que as pessoas gostaram do que eu escrevi?”. Essa busca incessante por validação nos deixa em um estado de ansiedade e fragilidade emocional, onde nossa autoimagem flutua ao sabor da aprovação alheia.
Por Que as Mulheres São Particularmente Afetadas?
Embora o impacto das redes sociais afete a todos, as mulheres, historicamente, foram socializadas para dar um peso maior à aparência, aos relacionamentos e à aprovação social. A pressão estética, que já era imensa, se torna esmagadora no ambiente digital. Padrões de beleza irreais, muitas vezes alcançados com filtros, edições e procedimentos estéticos, são vendidos como o novo normal, gerando uma onda de insatisfação corporal, transtornos alimentares e a busca por intervenções estéticas cada vez mais cedo.
Além disso, a maternidade, a carreira, o estilo de vida – tudo se torna um campo para a comparação e o julgamento. A “mãe perfeita”, a “profissional de sucesso”, a “esposa dedicada” – esses arquétipos inatingíveis assombram o imaginário feminino, gerando culpa e a sensação de estar sempre em falta.
Navegando de Forma Mais Saudável: Dicas para um Detox Digital e uma Mente Sã
Não precisamos demonizar as redes sociais e nos isolar do mundo digital. A chave é a consciência e o uso intencional. Aqui estão algumas estratégias para proteger sua saúde mental:
Uma “limpeza” no seu feed pode ser transformadora. Deixe de seguir contas que te fazem sentir mal consigo mesma e siga pessoas que te inspiram, que te ensinam algo novo, que mostram a vida real com suas imperfeições. Priorize conteúdo que te nutre, em vez de te diminuir.
Lembre-se sempre que as redes sociais são um palco. Ao rolar o feed, repita para si mesma como um mantra: “Isso é um recorte, não a realidade completa”. Desenvolva um olhar crítico sobre o que você consome.
Limitar o tempo de tela é fundamental. Estabeleça horários para usar as redes sociais e evite usá-las logo ao acordar ou antes de dormir. Use aplicativos que monitoram seu tempo de tela e te ajudam a criar limites.
Conecte-se com a vida real. Invista em suas relações offline. Saia com amigos, converse com sua família, pratique um hobby. A conexão humana real é o antídoto mais poderoso para a solidão e a comparação do mundo digital.
Praticar a gratidão muda a perspectiva. Em vez de focar no que você não tem, treine seu cérebro para focar no que você tem. Mantenha um diário de gratidão, anotando três coisas pelas quais você é grata todos os dias.
Poste com intenção. Antes de postar algo, pergunte a si mesma: “Por que estou compartilhando isso? É para me conectar, para expressar algo genuíno ou estou buscando validação externa?”.
E, por fim, busque ajuda, se necessário. Se você sente que as redes sociais estão afetando seriamente sua saúde mental, não hesite em procurar a ajuda de um psicólogo. A terapia pode te ajudar a fortalecer sua autoestima, a lidar com a ansiedade da comparação e a construir uma relação mais saudável com o mundo digital.
Reivindicando Sua Realidade e Sua Autoestima
Querida leitora, sua vida, com todas as suas alegrias, dores, conquistas e desafios, é real e valiosa. Sua beleza está na sua autenticidade, não na sua conformidade com um padrão inatingível. As redes sociais podem ser uma ferramenta maravilhosa de conexão e informação, mas não podem ser a régua com a qual você mede seu próprio valor.
Que você possa encontrar o equilíbrio, a consciência e a força para navegar nesse mar de imagens e informações com o coração ancorado na sua própria verdade. Que você possa se libertar da necessidade de validação externa e encontrar a mais pura e poderosa validação que existe: a sua.
Com carinho e um convite à desconexão para uma reconexão interior,
Psi. Carol Gonçalves


















