
Laila Carolina, 29 anos
Esta é a primeira edição da coluna Ela Não Morreu, Foi Morta.
Um espaço semanal para falar sobre feminicídio com responsabilidade, memória e posicionamento. Porque mulheres não morrem por acaso. Elas são mortas — e precisam ser lembradas pelo nome.
Hoje, o nome é Laila Carolina Souza da Conceição, 29 anos.
Laila foi assassinada pelo próprio cunhado após rejeitar investidas e comportamentos obsessivos que, segundo a família, já vinham acontecendo há algum tempo. Ela vinha sendo perseguida, pressionada e incomodada por alguém que fazia parte do convívio familiar.
Ela disse “não”.
Disse não às investidas.
Disse não ao assédio.
Disse não à obsessão.
E foi morta por isso.
O crime aconteceu no quintal da residência onde ela estava, diante dos próprios filhos. O autor confessou. Mas antes da confissão, antes da violência extrema, vieram os sinais.
A perseguição.
O desconforto.
O medo relatado à família.
A intenção de se afastar para se proteger.
E aqui está o ponto que se repete em quase todos os casos de feminicídio: os alertas existiram.
Laila não foi vítima de um “impulso”.
Não foi “crime passional”.
Não foi descontrole momentâneo.
Foi feminicídio.
Foi a expressão brutal de uma cultura que ainda ensina que o “não” de uma mulher é desafio, afronta ou humilhação — e não um direito.
📊 Uma realidade que se repete no país
O caso de Laila não é isolado. Em 2025, o Brasil registrou aproximadamente 1.470 feminicídios, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado, o que representa uma média de quatro mulheres assassinadas por dia por razões de gênero.
Em 2026, mesmo sem os números consolidados nacionalmente, os primeiros levantamentos regionais já indicam que a violência letal contra mulheres continua em patamar alarmante.
Por trás de cada número há uma história como a de Laila.
Mulheres que avisaram.
Mulheres que tiveram medo.
Mulheres que disseram “não”.
O “não” de Laila deveria ter sido suficiente.
Mas, no Brasil, o “não” de uma mulher ainda custa caro demais.
Custa a vida dela.
Custa a infância dos filhos que presenciaram o crime.
Custa traumas que nenhuma sentença consegue apagar.
Há algo que precisa ser dito com clareza: a violência não começa no dia da morte. Ela começa antes — no assédio tolerado, na obsessão ignorada, na ideia distorcida de posse.
Quando um homem acredita que tem direito sobre o corpo, a decisão ou a recusa de uma mulher, o risco já está instalado.
Laila tinha 29 anos.
Era mãe.
Era filha.
Era uma mulher que queria viver.
Não é apenas mais uma manchete.
É mais uma vida interrompida porque alguém não aceitou ouvir “não”.
Esta coluna nasce para não normalizar isso.
Para lembrar que feminicídio não é tragédia inevitável.
É crime.
E enquanto o “não” de uma mulher for tratado como provocação, seguiremos enterrando mulheres.
Laila não morreu.
Foi morta.
Por Cida Frausino


















