
Para muitas mulheres que vivenciaram algum tipo de abuso, seja ele físico, emocional ou sexual, a relação com o próprio corpo e com a sexualidade pode ser profundamente afetada. O corpo, que deveria ser um santuário de segurança e prazer, pode se tornar um campo de batalha, um lembrete constante da dor, da violação e da perda de controle. A sexualidade, que é uma expressão natural da intimidade e do afeto, pode ser associada a medo, vergonha ou repulsa.
Como psicóloga, entendo que a reconstrução dessa relação é um pilar fundamental no processo de cura pós-abuso. Não se trata apenas de superar o trauma, mas de reivindicar a posse do próprio corpo, de redefinir o que é prazer e de estabelecer novas regras baseadas no consentimento, no respeito e no amor-próprio. É um caminho de empoderamento que leva à redescoberta da plenitude.
O Corpo como Cenário do Trauma
O abuso, em suas diversas manifestações, frequentemente envolve uma invasão do espaço pessoal e uma violação da integridade física e emocional. Isso pode levar a uma desconexão com o próprio corpo, onde a mulher passa a vê-lo como algo externo, algo que foi usado ou que a traiu. Sentimentos de vergonha, culpa, nojo e raiva podem se alojar no corpo, manifestando-se em dores crônicas, transtornos alimentares, dificuldades sexuais ou uma aversão ao toque.
A sexualidade, que deveria ser uma fonte de conexão e prazer, pode ser distorcida, associada a experiências negativas e à ausência de consentimento. O desafio é transformar essa narrativa, ressignificando o corpo e a sexualidade como fontes de poder, autonomia e bem-estar.
Reconstruindo a Relação com a Corporalidade e a Sexualidade
Este processo de reconstrução é uma jornada de autodescoberta e cura, que exige paciência, gentileza e a permissão para sentir e explorar.
1. Reconectando-se com o Corpo: O Primeiro Passo para a Cura
O primeiro passo é reocupar o corpo, transformando-o novamente em um lar seguro e acolhedor.
- Atenção Plena Corporal (Body Scan): Pratique exercícios de mindfulness focados no corpo. Deite-se e direcione sua atenção para cada parte do seu corpo, observando as sensações sem julgamento. Isso ajuda a restaurar a conexão e a percepção corporal.
- Movimento Consciente: Atividades como yoga, dança, caminhada ou alongamento podem ajudar a reestabelecer uma relação positiva com o movimento e a força do seu corpo, permitindo que você o sinta de uma nova maneira.
- Toque Gentil e Consciente: Comece com o autotoque, de forma gentil e exploratória, sem expectativas. Use óleos ou cremes, massageando a si mesma. O objetivo é reaprender a sentir prazer e segurança no toque.
2. Redefinindo a Sexualidade: Prazer, Consentimento e Autonomia
A sexualidade pós-abuso precisa ser redefinida em seus próprios termos, com foco no seu prazer e no seu consentimento.
- Explore Seus Desejos e Limites: O que você gosta? O que não gosta? O que a faz sentir-se segura e prazerosa? Permita-se explorar e descobrir sua própria sexualidade, sem pressões externas ou comparações.
- O Poder do Consentimento: O consentimento é a base de qualquer interação sexual saudável. Reafirme para si mesma que seu corpo é seu e que você tem o direito absoluto de dizer “sim” ou “não” a qualquer toque, a qualquer momento. Isso inclui o autoconhecimento do seu próprio consentimento interno.
- Comunicação Assertiva: Se você estiver em um relacionamento, a comunicação aberta e honesta com seu parceiro(a) é fundamental. Compartilhe seus limites, seus medos e seus desejos. Um parceiro(a) respeitoso(a) irá acolher e honrar suas necessidades.
3. Desconstruindo Crenças Limitantes sobre o Corpo e a Sexualidade
O abuso pode implantar crenças negativas sobre o corpo e a sexualidade. É vital identificá-las e desafiá-las.
- Identifique as Mensagens Negativas: Quais mensagens você internalizou sobre seu corpo ou sua sexualidade após o abuso? (“Meu corpo é sujo”, “Eu não mereço prazer”, “A sexualidade é perigosa”).
- Reestruture Essas Crenças: Desafie a validade dessas mensagens. Elas são verdades absolutas ou resquícios do trauma? Substitua-as por afirmações empoderadoras: “Meu corpo é resiliente e sagrado”, “Eu mereço prazer e respeito”, “Minha sexualidade é uma expressão saudável de quem eu sou”.
4. Busque Apoio Profissional Especializado
Para muitas mulheres, a reconstrução da relação com a corporalidade e a sexualidade pós-abuso pode ser um processo complexo e doloroso. Um psicólogo especializado em trauma e sexualidade pode oferecer um ambiente seguro e ferramentas eficazes para essa jornada.
Conclusão
Reivindicar “Meu Corpo, Minhas Regras” é um ato de profunda cura e empoderamento. É um convite para reescrever a história do seu corpo e da sua sexualidade, transformando a dor em força, a vergonha em aceitação e o medo em prazer.
Este novo ano pode ser o momento de você se reconectar com a sua essência, de celebrar a sua corporalidade e de viver a sua sexualidade de forma autêntica, segura e prazerosa. Você tem o direito de ser a protagonista da sua própria história, e seu corpo é o seu templo. Honre-o, cuide dele e permita-se florescer em sua plenitude.
Por Carol Gonçalves CRP 01/26920, Psicóloga


















