Capacitação profissional está entre as ações promovidas dentro do equipamento público que auxiliam as mulheres a saírem do ciclo de violência; desde 2021, a CMB fez mais de 40 mil atendimentos a mais de 10 mil mulheres
Por: Adriana Izel, da Agência Brasília | Edição: Paulo Soares
“Hoje eu posso sorrir; antes eu vivia triste, assombrada. Você não tem noção do quanto foi difícil sair desse relacionamento. Foram dez anos de muitas brigas, ameaças, violência física e psicológica. A Casa da Mulher Brasileira foi muito importante para que saísse dessa condição.” O relato de Joana (nome fictício para proteger a identidade da vítima), de 39 anos, traduz a dor de uma década marcada pela violência e evidencia a importância da Casa da Mulher Brasileira (CMB), em Ceilândia, no processo de rompimento do ciclo de agressões em situações de violência contra a mulher.
Desde 2021, quando a casa foi reaberta pelo Governo do Distrito Federal (GDF), foram realizados 40.340 atendimentos — entre acolhimento, suporte psicossocial, orientação jurídica e encaminhamento à rede de proteção — a 10.933 mulheres.
Joana chegou até o equipamento público de gestão da Secretaria da Mulher (SMDF) em 2022, após ser encaminhada pela Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam), da Polícia Civil (PCDF), quando um dos vizinhos denunciou uma das tantas agressões que ela sofreu do ex-marido. “Aceitei, vim, e a casa foi me dando todo um suporte”, lembra.

O primeiro apoio foi por meio da capacitação que é ofertada às mulheres vítimas de violência e em vulnerabilidade social. Joana se inscreveu no curso de cabeleireira. Pegou gosto pelo ramo do embelezamento e emendou aulas de design de sobrancelha e alongamento de unhas. “Hoje posso pagar minhas contas sozinha. Sempre sonhei em ter minha liberdade financeira, porque foi exatamente a condição que me deixou vulnerável. Assim que começamos a namorar, ele pediu para que não trabalhasse mais. Então foram os cursos que me abriram portas para que eu começasse a ganhar o meu próprio dinheiro. Isso foi o que me ergueu”, conta.
Paralelamente aos cursos, Joana contou com suporte psicológico na Casa da Mulher Brasileira, para entender que vivia um relacionamento abusivo e resgatar a autoestima. “Não achava e não sabia que eram violências. Ele me xingava, me afastou da minha família, me agrediu diversas vezes. Eu tinha medo de falar com outras pessoas e me sentir culpada. A casa foi muito importante por causa disso, porque lá as pessoas nos escutam e não nos condenam. A casa acolhe a gente”, completa.
Também foi no local que a mulher recebeu orientações sobre benefícios e auxílios sociais — hoje, ela é beneficiária dos cartões Creche, Material Escolar e Uniforme —, apoio jurídico para garantir a pensão alimentícia dos três filhos por meio da Defensoria Pública do DF, entrou para o programa de Policiamento de Prevenção Orientado à Violência Doméstica e Familiar (Provid), da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), e conseguiu medidas protetivas contra o agressor.
Selma de Melo, assessora especial da Subsecretaria de Promoção da Mulher, que integra a Casa da Mulher Brasileira, revela que histórias como a de Joana são comuns dentro da CMB. “Nós temos aqui diversos relatos de mulheres que começaram a aprender a viver após a participação de qualquer ação conosco. Elas saem realizadas, porque sabem que têm um lugar onde podem procurar ajuda. Sabemos que temos conseguido alcançar e salvar muitas vidas, e isso é muito gratificante”, defende a servidora.
Espaço de acolhimento
Inaugurada em Ceilândia em 2021, a Casa da Mulher Brasileira é um equipamento público da rede de proteção feminina que funciona 24 horas e oferece acolhimento, atendimento psicossocial, cursos de capacitação e suporte jurídico e policial a mulheres em vulnerabilidade e em situações de violência.
A unidade serve como porta de entrada ao acolher a mulher no momento em que ela decide buscar ajuda, tanto em casos de risco iminente quanto durante a busca de orientação, proteção, escuta qualificada ou informações sobre direitos. O espaço dispõe de alojamento, faz o encaminhamento para outros serviços da rede, especialmente a Casa Abrigo, e atende os órfãos do feminicídio pelo programa Acolher Eles e Elas.
“A Casa da Mulher Brasileira é o nosso principal equipamento público. É a Lei Maria da Penha na prática, porque é onde trabalhamos toda a rede de proteção”, explica a secretária da Mulher, Giselle Ferreira. “É um espaço democrático, porque às vezes a mulher não quer ir até uma delegacia. Ela quer procurar uma ajuda, um apoio. É bom ressaltar que o trabalho lá é de prevenção. É para a mulher que está passando por violência, que quer registrar uma ocorrência, mas também é a casa da mulher. Aquela que quer passar por uma capacitação, buscar orientação, saúde e atendimento jurídico”, destaca.
“A Casa da Mulher Brasileira é o nosso principal equipamento público. É a Lei Maria da Penha na prática, porque é onde trabalhamos toda a rede de proteção”Giselle Ferreira, secretária da Mulher
“Trabalhamos muito a porta de saída, oferecendo capacitação, aluguel social e apoio psicológico, porque informação e conhecimento são o caminho para tudo”, defende Giselle. “Temos trabalhado muito e com muita seriedade, levado essa pauta para que realmente a mulher possa acreditar no Estado, pois, quando ele está sendo acionado, irá atrás de uma solução.”
Nos últimos anos, a Casa da Mulher Brasileira apresentou um salto significativo de mulheres atendidas. Passando da média de mais de mil, entre 2022 e 2024, para 6.265 em 2025, totalizando 13.009 atendimentos. Entre os principais fatores que explicam o crescimento, destacam-se as ações itinerantes na Estrutural e no Parque da Vaquejada, a parceria com o Centro Pop e iniciativas de saúde, autoestima e autonomia das mulheres, como o projeto Reconstruindo Sonhos.
Ampliação da rede
O DF conta também com unidades do Centro de referência da Mulher Brasileira (CRMB), que funcionam das 9h às 18h, de portas abertas para acolhimento, atendimento psicossocial e formação profissional de mulheres. Elas estão localizadas no Recanto das Emas, Sol Nascente/Pôr do Sol, São Sebastião e Sobradinho II. “Nós construímos duas na região Norte e duas na região Sul justamente para democratizar esse espaço. Essas novas casas têm como diferencial a terapia individualizada”, explica a secretária da Mulher.
Além disso, o GDF assinou um contrato para construção e equipagem da Casa da Mulher Brasileira (CMB) – Tipo I, no Plano Piloto. O equipamento será implantado na Quadra 903 da Asa Sul, e oferecerá atendimento humanizado, integrado e contínuo às mulheres em situação de violência em todo o DF.
Como denunciar
Os relatos podem ser feitos de forma presencial ou digital pelos seguintes canais: 197 (Polícia Civil), 190 (Polícia Militar), 156 opção 6 (Central 156 do GDF), 180 (Central de Atendimento à Mulher) e Maria da Penha Online.


















