“Até quando vamos nos calar?” Mulheres são maioria do eleitorado, mas ataques contra Celina reacendem debate sobre respeito às mulheres na política

Celina Leão, José Roberto Arruda e Lula: episódios recentes envolvendo a governadora reacendem o debate sobre o tratamento das mulheres na política. Foto: Reprodução/Montagem

As mulheres são maioria. Somos 83,8 milhões de eleitoras, 52,81% do eleitorado brasileiro e teremos, mais uma vez, papel decisivo nas escolhas que definirão os rumos do país. Em 2026, porém, a discussão sobre a participação feminina na política precisa ir além dos números: até quando mulheres que ocupam espaços de poder serão alvo de ataques, gritos, ironias e tentativas de desqualificação? Divergências políticas fazem parte da democracia, mas não deveriam servir de justificativa para transformar o debate público em ambiente de agressões pessoais.

O episódio mais recente aconteceu com a governadora do Distrito Federal, Celina Leão. Durante comício realizado em Ceilândia, na quarta-feira (16), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que a governadora agia de forma “cínica e mentirosa” ao responsabilizar o governo federal pela situação envolvendo o BRB. A declaração foi feita em um ato eleitoral de apoio à candidatura de Leandro Grass ao GDF.

Celina reagiu. Disse que esperava de Lula uma postura de presidente da República, e não de “cabo eleitoral”, e defendeu que a crise do BRB não seja transformada em disputa partidária.

Mas quem acompanha a campanha no Distrito Federal sabe que este não é o primeiro episódio em que a forma como Celina é tratada chama atenção.

A governadora já protagonizou confrontos duros com José Roberto Arruda nos debates, com elevação de voz, acusações de incompetência e embates que levaram a própria Celina a levantar publicamente a discussão sobre violência de gênero. Arruda rejeitou essa interpretação e sustentou que suas críticas estavam relacionadas à atuação administrativa da adversária.

Celina também já foi alvo de chacotas e ironias simplesmente por gostar de cantar durante eventos. Pode parecer algo pequeno, mas é justamente aí que surge uma reflexão maior: por que características pessoais de uma mulher tantas vezes se transformam em instrumentos para tentar diminuí-la quando ela ocupa uma posição de poder?

Agora, depois de tudo isso, a governadora do Distrito Federal ouve do próprio presidente da República que estaria sendo “cínica e mentirosa”.

É impossível olhar para a sucessão desses episódios sem discutir o espaço das mulheres na política e o debate sobre misoginia.

Isso não significa afirmar juridicamente que cada crítica ou ofensa dirigida a Celina configure violência política de gênero. Significa perguntar por que o debate político tantas vezes ultrapassa ideias, propostas e decisões e chega à forma de falar, à personalidade e a características pessoais de mulheres que chegaram ao poder.

E nós, mulheres, precisamos olhar para isso.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, somos 83,8 milhões de eleitoras nas eleições de 2026 — 52,81% de todo o eleitorado brasileiro. Somos maioria nas urnas.

Talvez seja justamente essa dimensão que ainda precise ser compreendida: a força feminina não está apenas em ocupar cargos públicos. Está também em não naturalizar o desrespeito, em ocupar o debate, exigir tratamento digno e fazer nossa voz ser ouvida.

Não precisamos pensar igual. Não precisamos pertencer ao mesmo partido. Nem sequer precisamos apoiar a mesma candidata.

Mas podemos concordar que mulher nenhuma precisa aceitar humilhação para provar que é forte.

Hoje, o episódio envolve Celina Leão. Amanhã poderá envolver outra governadora, uma prefeita, uma vereadora, uma jornalista, uma empresária ou qualquer mulher que decida ocupar um espaço onde antes esperavam que ela permanecesse calada.

Somos 52,81% do eleitorado.

Somos maioria.

E talvez esteja mais do que na hora de mostrar a força que existe na nossa voz — começando por não tratar o desrespeito às mulheres como algo normal.

Até quando vamos nos calar?

Por: Cida Frausino

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