Tiro sai pela culatra: Paula erra feio no debate ao atacar Celina na pauta feminina; governadora foi relatora de medidas contra assédio

Ataque durante primeiro debate eleitoral do DF contrasta com histórico de Celina na construção de políticas de proteção às mulheres, inclusive no combate ao assédio

O primeiro debate entre os candidatos ao Governo do Distrito Federal, realizado neste domingo (9), ganhou um dos momentos mais tensos quando Paula Belmonte tentou confrontar Celina Leão justamente em um terreno no qual a trajetória política da atual governadora possui registros concretos: a defesa e a proteção das mulheres.

Ao abordar as dificuldades enfrentadas pelas mulheres na política, Paula afirmou ter denunciado um caso de assédio sexual e alegou que não teria recebido apoio de Celina naquele episódio. A declaração foi utilizada pela candidata como crítica direta à governadora.

A estratégia, porém, abre espaço para um contraponto que vai além do embate eleitoral. Ao tentar colocar em dúvida a postura de Celina em relação às mulheres, Paula esbarra no próprio histórico parlamentar da adversária e na atuação que ambas tiveram, em diferentes momentos, em pautas femininas.

Antes de chegar ao comando do Distrito Federal, Celina Leão teve atuação no Congresso Nacional ligada à defesa das mulheres. Um dos exemplos mais objetivos ocorreu durante a tramitação da medida provisória que deu origem ao Programa Emprega + Mulher.

Celina foi relatora da MP 1.116/2022, posteriormente convertida na Lei nº 14.457/2022. Durante a relatoria, foram incorporadas ao texto medidas voltadas à prevenção e ao combate ao assédio sexual e a outras formas de violência no ambiente de trabalho, além de iniciativas relacionadas à empregabilidade, qualificação profissional, apoio à parentalidade e incentivo ao empreendedorismo feminino. A própria página de Paula Belmonte registrou, à época, as mudanças promovidas pela relatora Celina Leão.

Há outro elemento que torna o confronto deste domingo ainda mais significativo. Em 2021, Paula Belmonte e Celina Leão estiveram juntas em uma mobilização da bancada feminina da Câmara dos Deputados, que apresentou aos candidatos à Presidência da Casa uma carta de compromissos baseada em três grandes eixos: maior participação das mulheres na política, combate à violência contra meninas e mulheres e defesa da saúde feminina.

Ou seja, antes de estarem em lados opostos de uma disputa pelo Governo do Distrito Federal, Celina e Paula já dividiram espaços institucionais em defesa de pautas relacionadas às mulheres.

Isso não invalida o direito de Paula questionar Celina sobre um episódio específico nem permite concluir, sem outros elementos, como a governadora teria agido diante da denúncia mencionada no debate. Mas enfraquece uma tentativa de transformar o episódio em julgamento amplo sobre o compromisso de Celina com a pauta feminina.

O histórico mais recente também pesa nesse contraponto. Em evento realizado neste ano na Câmara Legislativa, Celina destacou que o Distrito Federal passou de 14 para 31 equipamentos públicos de proteção às mulheres, além de citar medidas como auxílio-aluguel para mulheres ameaçadas, assistência a órfãos do feminicídio e o programa Viva Flor.

E há uma ironia política adicional: uma das leis que integram atualmente a política pública para mulheres no Distrito Federal é de autoria da própria Paula Belmonte e foi sancionada pelo Executivo quando Celina estava no exercício do cargo de governadora. A Lei nº 7.289/2023 instituiu princípios, diretrizes e objetivos para a Política Distrital da Mulher. O texto oficial registra expressamente Paula como autora e Celina como responsável pela sanção.

Por isso, a tentativa de transformar a pauta feminina em instrumento de desqualificação pessoal contra Celina encontrou um obstáculo no próprio histórico institucional das duas.

Paula pode cobrar, questionar e confrontar a adversária sobre o episódio relatado. O que os registros mostram, porém, é que reduzir a trajetória de Celina na defesa das mulheres a uma acusação feita em meio ao calor de um debate eleitoral ignora anos de atuação parlamentar e políticas públicas que levam a assinatura da atual governadora.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Mais lidas

São Paulo

Dicas da semana

Linhas de ônibus na sua cidade

Associação Brasileira de Portais de Notícias