
Nos últimos dias, veículos independentes e portais alternativos do Distrito Federal passaram a ser alvo de acusações e narrativas que tentam associar o recebimento de publicidade institucional do Governo do Distrito Federal a supostos favorecimentos políticos. A ofensiva, impulsionada por publicações do portal Vero Notícias, levantou questionamentos sobre métricas digitais e distribuição de campanhas públicas, mas acabou expondo um grave problema: a disseminação de desinformação sobre o próprio funcionamento da comunicação institucional e das ferramentas de audiência digital.
O que muitos parecem ignorar ou convenientemente omitir, é que a participação de blogs, sites comunitários e mídias alternativas na publicidade institucional é que existe previsão legal para isso.
Desde 2014, a Lei Orgânica do Distrito Federal passou a garantir espaço para veículos alternativos e comunitários nas campanhas institucionais do poder público. A medida surgiu justamente para democratizar a comunicação e evitar a concentração absoluta de verbas em grandes grupos tradicionais de mídia, permitindo que veículos regionais, comunitários e digitais também tivessem acesso às campanhas públicas.
Ou seja: não se trata de “privilégio”, “favor” ou “benefício político”. Trata-se de uma política pública prevista em lei.
Além disso, a contratação de mídia institucional segue critérios técnicos, planejamento de comunicação, regularidade documental e habilitação junto às agências e órgãos responsáveis. Não existe distribuição baseada em amizade pessoal ou escolha individual de governantes.
A tentativa de transformar um direito garantido às mídias alternativas em narrativa política revela desconhecimento sobre a própria legislação do Distrito Federal.
Outro ponto que chamou atenção foi o uso equivocado de ferramentas de métricas digitais para atacar veículos de comunicação.
As publicações tentam descredibilizar dados de audiência utilizando estimativas do Similarweb como se fossem auditorias oficiais capazes de invalidar números do Google Analytics. Especialistas em tráfego digital e publicidade sabem que isso não possui fundamento técnico.
O Google Analytics é uma ferramenta oficial instalada diretamente no código do site e registra acessos reais em tempo real. Já plataformas como Similarweb trabalham com projeções estatísticas e estimativas externas de mercado, sem acesso interno aos servidores ou aos painéis reais dos veículos analisados.
Qualquer profissional minimamente familiarizado com comunicação digital sabe que:
- Analytics mede dados reais;
- Similarweb trabalha com estimativas;
- estimativa não substitui auditoria oficial.
A própria dinâmica dos portais regionais torna as divergências ainda maiores, principalmente em acessos vindos de WhatsApp, Telegram, Google Discover, redes sociais e acessos diretos, tráfego que ferramentas externas frequentemente não conseguem captar com precisão.
No mercado publicitário profissional, relatórios de Google Analytics e Google Search Console continuam sendo as ferramentas utilizadas para comprovação de audiência e desempenho digital.
Causa estranheza que veículos que atuam há anos no ambiente digital demonstrem desconhecimento sobre conceitos básicos de métricas online e publicidade institucional. Mais preocupante ainda é quando acusações públicas passam a ser construídas em cima de interpretações técnicas equivocadas, criando narrativas que atingem profissionais, jornalistas e veículos independentes que exercem papel importante na comunicação comunitária do DF.
A discussão sobre transparência e critérios de publicidade pública é legítima e necessária. O que não pode ser normalizado é a tentativa de transformar desinformação em manchete e usar estimativas de mercado como instrumento para atacar a credibilidade de toda uma categoria de comunicação alternativa conquistada por meio de luta, legislação e democratização do acesso à informação.


















