
Candidata do PSDB ao Buriti elogia petista e declara apoio à disputa pelo Senado; movimento contrasta com críticas feitas ao PT durante a campanha
A política brasiliense resolveu entregar mais um daqueles capítulos que deixam o eleitor olhando para a televisão e perguntando: “Mas não era diferente disso ontem?”.
Na reta final da eleição, Paula Belmonte (PSDB), candidata ao Governo do Distrito Federal, apareceu ao lado de Erika Kokay (PT) e declarou apoio à candidatura da petista ao Senado. O encontro ganhou repercussão justamente pelo contraste com declarações feitas por Paula durante a campanha.
No vídeo publicado nas redes sociais, Paula fez questão de destacar a atuação de Erika no Congresso Nacional. Segundo a candidata tucana, as duas conviveram na Câmara dos Deputados e, apesar das diferenças políticas, existe reconhecimento pelo trabalho parlamentar da petista.
Paula afirmou ainda que é possível pensar de maneira diferente e defender a democracia, mas destacou que o eleitor precisa escolher pessoas com competência e compromisso.
Até aí, tudo dentro da política.
O detalhe curioso é que a declaração aconteceu apenas alguns dias depois do debate entre os candidatos ao Governo do DF realizado pela TV Globo, em 29 de setembro. Na ocasião, Paula direcionou críticas ao PT e chegou a afirmar que “Brasília não aguenta mais o PT”.
Aí veio a reta final da campanha e, como costuma acontecer na política, o roteiro ganhou uma reviravolta.
De crítica ao elogio
No novo vídeo, Paula abandonou o tom de confronto e adotou o reconhecimento. Ela lembrou a atuação de Erika no plenário da Câmara e afirmou que a petista acompanhava os projetos e os problemas debatidos no Congresso.
A declaração foi recebida com entusiasmo por Erika.
“Obrigada, Paula. Tô querendo muito”, respondeu a candidata ao Senado.
Pronto. Estava formada uma das cenas mais curiosas da eleição no Distrito Federal.
De um lado, uma candidata do PSDB ao Buriti. Do outro, uma candidata do PT ao Senado. E, entre as duas, um pedido de voto que certamente não estava entre os episódios mais previsíveis da campanha.
A política não tem manual de instruções
Paula também passou pela tentativa de aproximação com o eleitorado ligado ao ex-governador José Roberto Arruda. Com a candidatura de Arruda fora da disputa, após decisão da Justiça Eleitoral, o cenário para os votos desse grupo passou a ser disputado por outras candidaturas.
O movimento de Paula em direção a diferentes segmentos do eleitorado mostra uma campanha que tentou ampliar seu espaço até os últimos dias.
Mas há uma peculiaridade: voto não vem com etiqueta.
O eleitor que simpatiza com determinado político pode escolher outro candidato, assim como pode mudar de preferência durante a campanha. É justamente por isso que toda tentativa de transferência automática de votos precisa ser vista com cautela.
E o discurso contra o PT?
É justamente aqui que mora a parte mais curiosa da história.
Durante o debate da TV Globo, Paula criticou o PT. Dias depois, apareceu em vídeo elogiando uma das principais representantes do partido no Distrito Federal e pedindo atenção do eleitor para sua candidatura ao Senado.
Não é necessariamente uma contradição jurídica, política ou democrática. Mas, eleitoralmente, é uma mudança de cenário suficientemente curiosa para render comentários.
Na política, afinal, parece existir uma regra não escrita: a campanha termina, mas as voltas que o discurso dá podem continuar até o último minuto.
O eleitor decide nas urnas
As pesquisas divulgadas na reta final colocam Paula entre os principais nomes da disputa, mas atrás de Celina Leão (PP) e Leandro Grass (PT). O levantamento Igape divulgado em 2 de outubro, por exemplo, registrou Paula com 11,1% dos votos válidos, enquanto Celina apareceu com 55% e Grass com 26,2%.
No Senado, Erika também aparece entre os nomes que disputam uma das duas cadeiras disponíveis pelo Distrito Federal.
O impacto eleitoral do apoio declarado por Paula, porém, só poderá ser medido nas urnas. Não é possível afirmar antecipadamente quantos eleitores seguirão a indicação.
Por enquanto, fica a cena.
A candidata tucana ao Buriti, que durante a campanha criticou o PT, terminou a reta final fazendo elogios e pedindo atenção para uma candidata petista ao Senado.
Brasília, definitivamente, não é para amadores — e a política muito menos.













