
A dificuldade de Leandro Grass (PT) em conquistar o eleitorado evangélico aparece com força na reta final da disputa pelo Governo do Distrito Federal. Pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira (28) mostra o petista com apenas 8% das intenções de voto entre evangélicos, enquanto Celina Leão (PP) alcança 60% no mesmo segmento.
O número chama atenção diante da movimentação recente de Grass em direção a esse público. Em 11 de setembro, já durante o período eleitoral, o candidato reuniu-se com lideranças evangélicas, prometeu apoio, em eventual governo, a igrejas e instituições religiosas que desenvolvem trabalhos sociais e afirmou que pretendia estar ao lado do “povo que tem fé”.
Mesmo após esses acenos durante a campanha, o desempenho entre os evangélicos permanece baixo. Na rodada anterior do Datafolha, realizada entre 8 e 10 de setembro, Grass aparecia com 5% nesse grupo. Agora tem 8%. Celina, por sua vez, passou de 57% para 60% entre os evangélicos.
Relação do PT com evangélicos acumula episódios de tensão
A dificuldade do PT com parcelas do eleitorado evangélico não começou nesta eleição. Ao longo dos anos, declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre líderes religiosos e episódios associados politicamente ao partido provocaram reações e debates no segmento.
Em 2015, durante um evento com sindicalistas, Lula ironizou a retórica utilizada por pastores neopentecostais. Ao falar sobre a atribuição de problemas ao diabo, o então ex-presidente também fez uma brincadeira envolvendo a cobrança do dízimo e afirmou: “Pague o seu dízimo que Jesus o salvará”. A declaração ganhou repercussão na época.
Em 2024, outra declaração voltou a provocar reação. Durante reunião ministerial, Lula afirmou que o Deus do advogado-geral da União, Jorge Messias, que é evangélico, não seria o mesmo do pastor Silas Malafaia. Na ocasião, o presidente também atribuiu às fake news e ao uso político da religião parte da dificuldade de aproximação de seu governo com os evangélicos. Malafaia respondeu publicamente às declarações.
“Evangélicos em conserva”
Mais recentemente, outra polêmica ganhou repercussão no meio religioso. No Carnaval de 2026, a Acadêmicos de Niterói levou para a Sapucaí um desfile em homenagem à trajetória de Lula. Entre as alas estava a chamada “Neoconservadores em conserva”, que satirizava diferentes grupos associados ao conservadorismo, incluindo evangélicos.
A representação provocou críticas de lideranças religiosas e ampliou o debate sobre a relação do campo político de Lula com esse eleitorado. Lula acompanhou o desfile, mas não há evidência de que tenha criado ou escolhido a ala; a concepção artística foi responsabilidade da escola de samba.
A repercussão ultrapassou o ambiente político. Pesquisa do Instituto Ideia realizada após o Carnaval apontou que 61,1% dos evangélicos entrevistados consideraram a representação ofensiva ou preconceituosa.
Lula volta a buscar aproximação
Já em setembro, Lula voltou a se reunir com pastores. Durante um desses encontros, afirmou que, ao longo de sua trajetória política, já utilizou referências cristãs para responder às críticas dirigidas ao PT. Disse que associava o vermelho da legenda ao “sangue de Cristo” e também mencionou sua barba ao fazer referência a Jesus. O presidente defendeu ainda que política não seja feita dentro das igrejas.
No Distrito Federal, a aproximação de Grass com lideranças evangélicas também ganhou visibilidade justamente durante o período eleitoral. Em plena campanha, o candidato passou a reforçar publicamente o diálogo com o segmento e apresentou propostas direcionadas a instituições religiosas que desenvolvem trabalhos sociais.
O movimento, porém, ainda não se refletiu em apoio expressivo nas pesquisas. Mesmo após esses acenos durante a campanha, Grass aparece com apenas 8% das intenções de voto entre os evangélicos no Datafolha, enquanto Celina Leão alcança 60% no mesmo segmento.
O contraste chama atenção diante do histórico recente de episódios que provocaram reação entre lideranças e parcelas do público evangélico envolvendo Lula e o campo político do PT. Do desfile de Carnaval que representou evangélicos na ala “Neoconservadores em conserva” às declarações controversas do presidente sobre pastores e religião, as tentativas recentes de aproximação acontecem em meio a uma relação marcada por divergências e críticas públicas.
O levantamento ouviu 910 eleitores do Distrito Federal entre 22 e 24 de setembro. A margem de erro geral é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob os números DF-01888/2026 e BR-06769/2026.













